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Quem expõe filho ao perigo excessivo pode perdê-lo; quem o preserva de todo o mal, igualmente

Por Jornal A Bigorna 30/11/2025 11:00:00 298
Quem expõe filho ao perigo excessivo pode perdê-lo; quem o preserva de todo o mal, igualmente

Rafael amou Ana com perfeição. Casal lindo, aspergiam alegria por onde passavam. O dinheiro das duas famílias era bom, sem serem milionários. O casamento foi celebrado com harmonia de flores e de cores. Como esperado, a gravidez de Ana gerou um rebento belíssimo. Eram intensamente felizes.

O pequeno recebeu o nome de Emanuel, “Deus conosco”, como esclareciam os orgulhosos pais na maternidade. O padre que fez o batizado achou um pouco pretensioso, explicou que era um dos títulos de Jesus. Os pais argumentaram que havia um modelo e DJ chamado Jesus Luz e inúmeras mulheres com o nome da mãe do Salvador pelo mundo: o filho deles não seria uma ofensa inédita. Afinal, disseram, em meio a tantos Cauãs e Enzos, o padre sempre pedira nomes bíblicos. Emanuel era profundamente religioso, quase sagrado. Fez-se o sacramento.

O mundo é um lugar perigoso. Escolas podem conter violências. Os pais decidiram que o filho teria educação em casa. Emanuel conviveu com adultos selecionados. O acesso à casa era condicionado a uma excelente saúde. Nada poderia contaminar o filho protegido com zelo e carinho. As aulas eram muito bem preparadas pela mãe, que tinha dois diplomas universitários. Houve professores particulares, excursões pedagógicas, livros e peças de teatro. Emanuel aprendia acima da média.

Emanuel recebeu boa educação e, como o jovem Sidarta antes de virar Buda, apenas viu beleza no mundo. Não conheceu escassez, brincou muito com a mãe e hábeis babás saudáveis. Encenou peças em casa, atuando com os pais e dois primos bem vacinados e supervisionados. Emanuel nunca viveu carência ou solidão. Desconheceu fome e violência. Viveu na redoma com altos muros do mundo amoroso e limitado daquela família. Tudo indicava uma criança feliz, sorridente, estimulada por boas leituras e elogiada pelo círculo íntimo. Era o príncipe sereno de um pequeno reino próspero. Seu corpo não viveu doença grave, sua mente nunca se angustiou com dramas fortes e seu sono foi sempre sereno e rápido. Seus pais e avós, babás e outros funcionários eram a corte bem-aventurada que ele sempre percebeu como suficiente e natural. Tinha sido defendido do mundo e das dores inerentes da alteridade humana. Na estufa familiar, a flor rara rompera em viço e tranquilidade.

Houve detratores, sim. Uma prima lembrara que “ostra feliz não faz pérola”. O padre que estranhara o batizado lembrou que vivíamos em um “vale de lágrimas” e o sofrimento tinha papel na ordem da salvação das almas. O pediatra insinuou que faltava a vitamina “S” (de sujeira), que o preservaria de alergias futuras.

Um vizinho comentava que “o carro que não sai da garagem nunca será arranhado. O navio, no estaleiro, sempre ficará seguro. Porém, não cumprem sua missão”.

O brilho do menino era o de um animal de raça criado em cativeiro com cuidados absolutos. Cercado de cordeiros, jamais saberia distinguir um lobo. Todos que se aproximavam dele sorriam e queriam ajudar. Ficou uma criança doce, agradável, que confiava em qualquer ser humano. Não era, exatamente, “mimado”; era “não vivido”, intocado, um querubim junto ao trono de Deus e longe das vicissitudes deste planeta. Uma criança “mimada” vive no mundo e, independente dos pais, um dia encontrará na escola um colega maior que vai mostrar que há poderes superiores a ele. Uma criança “mimada” acabará enfrentando o azedume de professores, que, necessário dizer, abominam rebentos dessa estirpe. Os franceses chamam de “enfant gâté”. Na sala dos professores, é o “entojado”. Emanuel estava longe de colegas maiores e de professores. Era afável, sempre, como bambu sobre o qual nunca um vento áspero ou chuva dura tinha se abatido. Crescia sem atritos. Navegava sem adversidades.

A seu tempo, surgiu a única e grande dor do querubim: os pais faleceram. Emanuel conheceu um luto devastador. Amava e fora amado. Recebeu apoio de parentes e de primos, mas nunca fora íntimo fora da casa. Ficou bem: os pais providenciaram fundos e seguros. Começou a gastar e a gerir sua vida. Sem produzir novos capitais e pouco hábil no mercado financeiro, em dois anos perdeu tudo. Ficava aturdido. Tinha sido enganado por várias pessoas e era incapaz de ter a malícia no trato. Foi espoliado por pessoas que cresceram sem os mesmos cuidados e proteções. Em uma tarde de sol, assinou um papel sem ler: “É só formalidade”, disseram. Em poucas semanas, não tinha mais a casa.

Há alguns meses, disseram-me, um vizinho o viu pedindo dinheiro na cracolândia. Os olhos ainda eram puros, mas estava assustado. Ao seu redor, o inferno absoluto e ele, querubim sem pecado, nunca entendeu como chegara até ali. Fora preservado de tudo, inclusive da vida. Pessoas como Emanuel precisam de pais imortais. Ele era “Deus conosco”, mas o mundo não tinha Deus como meta ou guia. Morreu aos 23 anos, com traços da antiga beleza e o mesmo olhar de sempre. O padre que o batizara refletiu, no enterro, sobre os desafios de educar. Quem expõe filho ao perigo excessivo pode perder o filho. Quem preserva a criança de todo o mal, igualmente, corre riscos. Entre o escudo e o mundo, onde fica a ponte? Imitando Guimarães, alguma “ex-perança”?

Opinião por Leandro Karnal

É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

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